Projeto Portfolio

Alisson Damasceno, Bárbara Schall, Gabriel Balbino, Igor Santos, João Amorim, Lucas Emanuel, Luís Teixeira, Marinalva Rosa e Sofia Lotti.
de 15 de Junho até 13 de Julho de 2024.

Tendo sua primeira edição em 2023, o Projeto Portfolio é uma iniciativa da AM Galeria de promover anualmente uma exposição coletiva que ofereça ao público um recorte da produção contemporânea e sua diversidade. Alinhando-se a eventos similares organizados por outras instituições culturais e galerias no país, a particularidade dessa proposta é tanto a de apresentar um conjunto de obras de cada artista (em detrimento de apenas uma, como porventura acontece em coletivas deste perfil) quanto a de focar em artistas cuja produção consolidou sua linguagem, descolando-se seja da ideia discutível de “revelação de talentos” quanto do outro extremo, o de figuras históricas. A exposição privilegia, pois, uma amostragem do percurso artístico de cada participante em seu momento atual e com questões próprias cujas abordagens contam com um lastro de experiências anteriores e o desdobramento delas.

 

A constatação de uma investida poética formada pelo atravessamento de visualidades coloca-se de modo singular em alguns trabalhos: as pinturas de Luís Teixeira amalgamam elegância e um fino humor, ao entrecruzarem temas permeados de um imaginário mais do que pop, popular (um pôr do sol que lembraria aqueles de folhas de calendário e seu respectivo sentimentalismo, por exemplo), e reapropriação de uma economia formal singela (em certos momentos austera) não menos afim à herança de uma concisa abstração geométrica, criando pinturas-objetos –  pois elas começam dentro da tela e prolongam-se para além dela,  tomando a parede e o “tempo visual” demarcado na distância entre as partes do trabalho como constituinte do campo em que a pintura e sua imagem “acontecem” mediante essa duplicação do espaço em obra – ativadores de recortes narrativos. É uma abordagem, que, com seu tom urbano, faz-se presente também nas xilogravuras de Gabriel Balbino, Igor Santos e João Amorim, cuja escala significativa, o uso de sobreposições de impressões e técnicas (como, em uma das obras, no emprego da tinta gráfica e do spray), estabelecem um diálogo que vai dos lambe-lambes em outdoors aos panfletos distribuídos em calçadas, sem esquecer da tradição vinda dos cordéis ou da onipresença dos grafites ou do palimpsesto de pichações feitas umas sobre outras. Nesse ponto, eles conjugam a meticulosa e paciente artesania implícita ao ofício da gravura (um apuro técnico igualmente necessário no grafite) com a cacofonia dinâmica das metrópoles. As figuras ali representadas alternam seus possíveis sentidos: podem ser uma imagem predileta de cada um dos artistas, talvez a foto fortuitamente pendurada em uma banca ou surgida na internet, o cartaz ou um anúncio ou placa visto alhures (como nas sinalizações comuns em estabelecimentos do comércio popular) – e, afinal, são isso tudo simultaneamente.

 

A fronteira entre abstração e paisagem é investida de uma nova tônica nas obras de Sofia Lotti e Marinalva Rosa. Sofia, que lança mão da têmpera e do pastel seco – proporcionadores de uma luminosidade ao mesmo tempo “seca” e aveludada – obtém tanto gradações opacas características desses materiais quanto detalhes em que ocorre um brilho, uma qualidade inesperada na corporeidade usual de ambos. A ambiguidade de uma construção na qual a distribuição das partes evoca a ordenação dos elementos de uma paisagem com formas em silhueta que tendem a divergir de uma figuração registram um processo no qual sistemas que historicamente se opunham (que se pense especificamente no significado do princípio de “composição”) reinventam-se quando esgarçados ou postos à prova nessas flexibilizações de seus “modos de funcionamento”. Marinalva, por sua vez, explora outro tipo de duplicidade: em alguns trabalhos a fronteira entre desenho e pintura – cujas desventuras são bastante complexas, quando lembramos da diversidade de papéis estabelecidos entre elas na história da arte (o desenho ora como suporte, ora como “essência” da pintura; a hierarquia entre as linguagens; o desenho como projeto da pintura) – se dá em uma distensão das linhas / planos, em que a pintura se faz enquanto se desenha, ou, reversamente, quando a largura dos planos pictóricos dissolve a distinção entre forma e contorno, como se alguns planos fossem as duas coisas simultaneamente. O fato disso se dar de um modo no qual pintar é também desenhar (e não uma sucessão de etapas) faz a imagem nascer de maneira ensaística, como um pensamento em ato.

 

Alisson Damasceno e Lucas Emanuel propõem em suas pinturas duas perspectivas distintas, passíveis de serem lidas complementarmente. Se ambas registram nitidamente uma espécie de “progressão” em suas cenas – ou, melhor dizendo, uma pulsão –, em Lucas, ela tende a uma absorção do “evento” ali representado para um espaço contido em si mesmo (um dado outrora conformador da autonomia objetual da pintura moderna, se visto pela análise do historiador da arte e crítico norte-americano Michael Fried), parecendo ecoar o instigante silêncio das desvanecentes, residuais e imprecisas figuras presentes em suas telas – a imagem se retrai rumo ao seu interior. Assim percebidas e nesse estado de uma lenta transformação, elas se mostram fugidias, misteriosas, ao mesmo tempo em que nessa progressiva metamorfose congelada, sugerem que se dissolveriam ao ponto de se fundirem ao próprio “chão” da tela, conferindo-lhes um tom elegíaco. Em Alisson notamos uma presença expansiva das imagens: ela porta a metáfora do crescimento orgânico, cujo sentido se abre tanto para a ideia de descoberta da potência individual (a contiguidade da imagem do móvel escolar e do florescimento das plantas comunicam o valor do cultivar-se como experiência de criar seu lugar no mundo) bem como toda uma memória inscrita nas plantas: as espécies que ele escolhe não são causais; todas elas se vinculam a saberes relacionados ao sagrado, a poderes curativos e a atenção ao cuidado que nos falam sobre a vida, sobre tradições que foram alvo de silenciamentos. Ademais, ressalte-se que essa expansividade ocorre ainda na materialidade dos trabalhos, com a variação de suportes (partes de cadeiras escolares, por exemplo) que literalmente dão corpo a esse movimento rumo ao mundo.

 

A questão do fugidio e da paisagem, por fim, também perpassa as obras de Bárbara Schall. Os desenhos da artista, feitos com o depósito de pigmentos terrosos sobre o papel, quase como se fossem desenhos de (e com) poeiras, capturam o que poderiam ser vestígios de uma caminhada, de um contato com a terra, mas afiguram-se sobremaneira como desenhos executados pelo ar e pelo vento que transportam a terra de um lado para o outro – um desenho-semeadura, por assim dizer. Essa memória do mundo é, entretanto (e no mesmo tom), pessoal: a escultura aqui apresentada é um monumento afetivo a uma pessoa ausente, cara a artista. O empilhar das pequenas peças de argila (terra de onde se nasce e para onde se volta) perfaz-se como um gesto de reiterar e tornar presente sua lembrança, uma dimensão do trabalho do luto tantas vezes manifesta na própria razão de ser da arte.

 

 

Guilherme Bueno

Curador