Luzia Simons – Paisagens Passagens
A exposição Paisagens Passagens, de Luzia Simons, na AM Galeria SP, reúne obras da série Stockage e atuais concebidas durante a sua residência artística no ateliê de Lina Bo Bardi e no jardim de Lina e Pietro Maria Bardi, apresentadas recentemente no Instituto Bardi / Casa de Vidro, em São Paulo.
Desde que se mudou para a Europa aos 23 anos, Luzia Simons tem explorado a identidade como construção sociocultural e o corpo como território em trânsito. A sua obra, marcada por deslocamentos físicos e simbólicos, aborda a vulnerabilidade, a memória e a transformação como forças vitais da existência. A artista faz da natureza uma metáfora de sua própria experiência de migração: raízes transplantadas, flores que se adaptam, frutos inusitados, espécies que coexistem em novos ecossistemas.
Em Paisagens Passagens, Simons propõe um percurso poético e simbólico através da natureza — entendida não como cenário, mas como entidade viva, protagonista e mediadora das relações entre cultura, história e ecologia. As suas obras nos convidam a pensar elementos da botânica como um microcosmo do mundo, onde se cruzam tempos, geografias e saberes. O ato de cultivar, cuidar e observar as plantas torna-se, em sua prática, uma forma de conhecimento e também de resistência diante da aceleração e da artificialidade da vida contemporânea.
A exposição inclui fotografias, aquarelas, cianotipias, tapeçaria, objetos e instalações que compõem um arquivo botânico resultante de sua pesquisa, experimentação e criação. Esses trabalhos revelam o diálogo sensível da artista com a natureza e a continuidade de uma pesquisa em que o gesto de coletar e organizar espécies vegetais se transforma em um ato de leitura do mundo natural e de suas relações com a cultura.
O interesse de Luzia Simons pela natureza não é romântico nem meramente contemplativo. Ele surge de um olhar crítico e atento às suas camadas simbólicas e políticas — à forma como o colonialismo, a migração e a globalização transformaram o modo como percebemos e representamos a botânica. Suas obras abordam a natureza como arquivo de deslocamentos e encontros, como espaço de fricção entre o local e o universal, o efêmero e o perene.
A artista é reconhecida por sua abordagem experimental e pelo uso inovador da técnica do scanograma, que substitui a câmera fotográfica pelo escâner. Essa tecnologia lhe permite capturar flores e plantas em altíssima definição, revelando suas texturas, cores e estruturas com uma precisão quase científica. Entretanto, o resultado é profundamente pictórico e sensorial. Tanto na série Stockage como da série Paisagem Passagem, essa prática ganha densidade simbólica: as flores escaneadas parecem flutuar num tempo suspenso, evocando o esplendor das naturezas-mortas barrocas e, simultaneamente, as tensões entre vida, morte e memória.
Na sua obra, não é apenas o escâner, que se destaca, mas principalmente o seu olhar aguçado e o seu traço pictórico e analógico no processo de criação das aquarelas que se tornam instrumentos e estratégias de aproximação, um modo de tocar o efêmero e fixar o instante. Cada flor, folha ou fragmento vegetal é testemunho de uma passagem, de uma história que atravessa fronteiras geográficas e temporais.
Ao reunir obras recentes e emblemáticas, Paisagens Passagens ressalta continuidade e renovação na trajetória de Luzia Simons. Nesta exposição a artista propõe uma leitura sensível e crítica da natureza como espelho do humano, um espaço onde se revelam as tensões entre pertencimento e deslocamento, permanência e mutação, visível e invisível. Suas imagens nos convidam a perceber o mundo natural não como algo isolado de nossa existência, mas como uma extensão do corpo e da memória, um campo de passagem entre o pessoal e o universal.
Tereza de Arruda, curadora
Outubro 2025