Olho Mágico

Carolina Botura
de 18.10 a 11.11.2025

curadoria de Ana Avelar

 

Tecnologia pictórica mais que humana

 

Ver é um requisito para conhecer, se importar e, portanto, agir. Em Olho Mágico, Carolina Botura nos convida a reaprender a ver – não apenas com os olhos, mas com o corpo todo, em um tempo dilatado e com uma atenção radical. A exposição é um chamado à experiência de mundos múltiplos: o da floresta, o das inteligências não humanas, o do gesto criador que se aproxima mais da natureza do que da técnica.

 

Neste espaço imersivo, a pintura deixa de ser suporte e torna-se presença. Esticadas diretamente nas paredes, as grandes telas revelam seu processo como matéria viva: camadas de gestos, manchas, espirais, caminhos cósmicos e não-euclidianos. Cerâmicas brotam da terra, como ervas daninhas cultivadas de propósito. Os corpos, humanos ou não, se dissolvem em emaranhados de formas e cores que se recusam ao controle.

 

Inspirada por pensadoras como Donna Haraway e autores como James Bridle, Botura recusa as divisões entre natureza e tecnologia, humano e animal, ciência e magia. Seus trabalhos constroem um imaginário onde “holobiontes” – seres múltiplos, interdependentes, fragmentários – nos lembram que não somos um, nem isolados, mas tecidos de vínculos visíveis e invisíveis.

 

No pano de fundo da exposição, pulsa uma inquietação contemporânea incontornável: as tecnologias mais avançadas do planeta – inteligência artificial, aprendizado de máquina, redes de dados – estão, em muitos casos, a serviço de projetos extrativistas que aceleram a crise climática e o colapso ecológico. Como aponta James Bridle, a IA que promete simular a mente humana é também utilizada para demolições em escala planetária: na exploração de combustíveis fósseis, na devastação de ecossistemas, na lógica absurda de eficiência que sacrificaria até mesmo a vida em nome da produção incessante de clipes de papel. Olho Mágico inscreve-se contra esse determinismo tecnológico, recusando a ideia de que só existe uma forma de inteligência – a humana, a computacional, a instrumental. Em vez disso, a exposição propõe uma ecologia da tecnologia: uma forma de criação enraizada na escuta, na relação, no respeito aos ciclos vitais. O que significa imaginar uma máquina mais parecida com um polvo ou uma floresta? E como essas novas formas de imaginar podem nos reaproximar do mundo do qual fomos apartados pelas ferramentas que criamos? Carolina Botura sugere que talvez seja justamente nesse retorno ao sensível, ao gesto, à matéria viva – no barro, na pincelada, na atenção aos seres invisíveis – que encontraremos caminhos para um futuro menos destrutivo e mais regenerativo.

 

O espaço da galeria é território reencantado. Sonhado como chão virado do avesso, onde a terra aparece, a exposição constrói uma proposta de “florestania”, algo no sentido daquilo que o pensador Ailton Krenak entende como um modo de viver a floresta dentro de si, contestando as ordens urbanas e lineares que limpam, separam, silenciam.

 

Pintar, para a artista, é ato mágico: gesto que transforma consciência em forma. Como num rito, seus trabalhos evocam seres do mundo invisível que adquirem massa, habitam o espaço e nos exigem outro tipo de olhar – mais lento, mais sensível, mais aberto.

 

Em Olho Mágico, a artista propõe uma atenção descentrada, capaz de acolher aquilo que escapa aos sentidos treinados para a nitidez e a eficiência. Ver, aqui, é também desver: desfazer os automatismos do olhar, dar espaço ao que pulsa no entre – entre gesto e matéria, entre controle e abandono, entre mundo visível e forças sutis. Ao desacelerar nossa percepção, as obras instauram um tempo outro: o tempo da planta, do barro, da mutação. Um tempo que exige escuta, presença e um pacto de coexistência com formas de vida que não cabem nas categorias usuais.

 

Entre vida e morte, fragmento e unidade, controle e intuição, Olho Mágico propõe ver de outro jeito. Fechar um pouco os olhos para enxergar mais fundo. Ver como ato de cuidado. Ver como prática política.