Gesto, Figura, Forma

Rolf Behm, Leonora Weissmann, Michelle Rosset
6 de setembro a 4 de outubro de 2025

“Cor em potência.”1 O início de um capítulo de Georges Didi-Huberman em A Pintura Encarnada pode ser tomado como um dos eixos poéticos de Gesto, figura, forma, coletiva aberta neste setembro de 2025 na AM Galeria de Arte paulistana. A partir do acervo e da representação de artistas, estruturou-se três vetores de produção, em que cada nome apresenta atributos bastante evidentes e, em alguns momentos, partilham polos de contato por vezes não tão claros.

 

O gesto pode ser facilmente apreendido no corpus de obra de Rolf Behm (Karlsruhe, Alemanha, 1952). Em geral por meio de telas de grande escala, com técnica mista, o pintor germânico atinge bons resultados com a fusão de meios e extraindo da abstração um clima de enigma, às vezes em tom festivo, às vezes menos solar, talvez pela vivência dupla entre Berlim e Rio de Janeiro.

 

Olhar listrado (2023), de 1,20 m x 1, 40 m, se vale dos campos de cor em azul mais intenso que se desfazem em uma porção de listras em verde, quase como a um efeito de poluir, contaminar algo mais incólume. Já em Bice Kaa – Butta (2022) suas figuras geométricas rendem um estado de bom humor, enquanto que em outras pinturas de datas próximas a exploração de volumes redondos e ovoides chegam a conotar algo (possivelmente exógeno) de iminente perigo. Essa liberdade tanto de cromatismo como de traço que remete ao gráfico atesta as potencialidades de uma pintura que almeja o libertário e não se prende a amarras de linguagem.

 

Para Gesto, figura, forma, as pinturas da mineira Leonora Weissmann (Belo Horizonte, MG, 1982) revelam a excelência da artista no tráfego do figurativo, mas não deixam de trazer também as inquietações por meio de gêneros como o da paisagem. Chama a atenção a grande habilidade na produção de retratos, incluindo o seu próprio. No entanto, há sempre uma inquietude presente, que desestabiliza uma poética que poderia ser apenas predominantemente técnica. É como se o pincel, as tintas e as superfícies de Weissmann se assentassem sobre bases movediças, já que por vezes as próprias superfícies das pinturas são retiradas do entorno do cotidiano.

 

A partir dessa arqueologia do sensível, o persistente labor (pictórico) de ateliê parece brilhar ainda mais, com os jogos, desdobramentos e projeções da história da arte e a eleição de talvez sua linguagem mais assentada, a pintura, se alimentando de algo fugidio, transitório e precário.

 

Já com suas paisagens, a artista cria pequenos pedaços de outros lugares e espacialidades que podem tanto gerar pequenas crises quanto apontar passagens, escapes, planos outros. Nessa investigação, ela parece se afastar do matérico tão sedutor no seu estudo plástico do humano e envereda por algo mais sem definição, uma luz a se esvair, uma solidez a se desmanchar pouco a pouco. Por isso os panoramas aquarelados a captar uma luz mais evanescente que parecem nos lançar a algo menos definitivo, verista e estanque. Mas sempre caminhando na figuração.

 

A paulistana Michelle Rosset (São Paulo, 1973) tem no tridimensional a predominância da sua produção, porém em Gesto, figura, forma vemos a gênese dessa obra recente. A partir da série fotográfica Forma, casa (2018-24), em que as imagens rebatidas, desdobradas e criadas fugazmente pelo jogo de luz e sombra na própria residência exibem uma geometria do dia a dia e de existência frágil e sutil. Como se corporificasse essas vontades da forma, ela parte para objetos, inicialmente, de pequena monta, em geral utilizando materiais comuns e não nobres. Tal como se a arquitetura brutalista tão típica de SP se encontrasse com o neoconcretismo não dogmático (e mais praticado por artistas do RJ) e, daí, resultasse em novas estruturas, formas e concreções. Um resumo de como nossos lampejos do construtivo foram mais flexíveis e permeáveis ao não planejado e escaparam de programas mais rígidos.

 

Rosset é nome contemporâneo que sabe do legado de medalhões como Amilcar de Castro (1920-2002) e Franz Weissmann (1911-2005), tão bem exibidos na própria AM, contudo não se curva à tal herança. Parte do corte e dobra e de outros elementos desses autores e cria, por uma práxis dela mesma, novas experimentações de forma, cor, luz e matéria. Nesse sentido, as curvas de Estrutura tensionada (2025), Corpo de papel (2025) e CM III (2023) são reveladoras da busca não linear na investigação da artista e comprovam que tal geometria doce tão presente na nossa história da arte ainda propicia diversos e numerosos passos e etapas a se desenrolar por mais tempo que imaginamos.

 

Mario Gioia, agosto de 2025

 

1.DIDI-HUBERMAN, Georges. A Pintura Encarnada. São Paulo, Escuta/FAP Unifesp, 2012, p. 40.