Dan Fialdini: arquiteturas da imaginação
Ana Avelar
Há algo profundamente enigmático nas esculturas de Dan Fialdini. À primeira vista, podem parecer familiares figurando casas, fachadas, barcos, torres, escadas, árvores e pequenas construções, que evocam paisagens reconhecíveis. No entanto, são imagens que habitam algum lugar entre a lembrança, o sonho e a imaginação. À medida que o olhar permanece sobre elas, torna-se evidente que não pertencem exatamente a lugar algum. São arquiteturas suspensas entre tempos, culturas e geografias. Não representam um território específico, podendo dizer respeito a um estado de espírito.
Esculpidas pacientemente em blocos maciços de mármore, suas obras parecem emergir de uma temporalidade distinta daquela que rege o mundo contemporâneo. Em uma época marcada pela velocidade, pela circulação incessante de imagens e pela desmaterialização da experiência, Fialdini trabalha a partir da lentidão. Sem assistentes, conduz integralmente o processo de transformação da pedra, extraindo dela formas que parecem ter aguardado silenciosamente sua revelação. O mármore, matéria associada à permanência, torna-se o suporte ideal para uma obra que investiga precisamente as relações entre memória, duração e pertencimento.
Diante disso, tudo parece acontecer em torno da ideia de casa. Não da casa como construção funcional, mas da casa como imagem primordial. Assim, a domus surge como centro organizador de um universo simbólico que se desdobra em diferentes direções. As fachadas, portas, janelas e escadas presentes em suas esculturas não desempenham apenas funções arquitetônicas. Elas operam como estruturas mentais, dispositivos de orientação espacial que indicam ao sujeito onde ele se move.
Nesse sentido, a obra de Fialdini aproxima-se das reflexões de Gaston Bachelard em “A Poética do Espaço”. Para o filósofo francês, a casa não constitui apenas um abrigo físico, mas uma das mais profundas imagens da vida interior. Ela é o espaço onde se sedimentam as experiências fundamentais da existência, tornando-se um arquivo afetivo da memória[1]. Mais do que habitarmos as casas, são elas que acabam habitando nossa imaginação.
Nesse sentido, as esculturas de Fialdini parecem materializar precisamente essa condição. Suas construções não descrevem edifícios reais, mas arquétipos do habitar. São casas que condensam experiências ancestrais de proteção, recolhimento, contemplação e pertencimento. Observá-las é como acessar uma memória que não é inteiramente individual, mas compartilhada em um plano mais profundo da cultura.
Essa dimensão arquetípica torna-se ainda mais evidente na recorrência das escadas. Em Bachelard, a verticalidade da casa — seus porões, escadas e sótãos — corresponde a diferentes níveis da experiência psíquica. Em tradições religiosas e cosmológicas diversas, a escada surge como símbolo da ligação entre mundos distintos, permitindo a comunicação entre céu e terra, matéria e espírito, humano e divino.
Nas esculturas de Fialdini, as escadas frequentemente conduzem a lugar nenhum. Embora, às vezes, estejam posicionadas em vãos do fora para o dentro. Ou talvez conduzam justamente ao lugar mais importante de nossa subjetividade: a imaginação. Tornam-se imagens de passagem, de transformação e de ascensão. Em uma leitura alquímica, poderiam ser compreendidas como dispositivos de união entre opostos, expressando o casamento simbólico entre o terreno e o celeste.
Não é por acaso que o imaginário alquímico parece atravessar silenciosamente sua produção. O sol e a lua aparecem como presenças recorrentes, retomando antigas cosmologias que associavam o princípio solar ao masculino e o lunar ao feminino. Não se trata aqui de uma adesão literal a sistemas esotéricos, mas da ativação de estruturas simbólicas que atravessam séculos da chamada cultura ocidental – e mesmo de diversas culturas ancestrais. Na tradição alquímica, a união entre sol e lua representa a superação das dualidades e a busca de uma totalidade perdida. Em muitas esculturas de Fialdini, esses elementos parecem coexistir em equilíbrio, como se participassem de uma mesma ordem silenciosa.
As esferas — ou “orbs” —, que surgem em diversas obras, ampliam essa dimensão cosmológica. Desde a Antiguidade, a esfera constitui uma das imagens mais persistentes da perfeição, da unidade e da completude. Sua presença interrompe a narrativa arquitetônica e introduz uma dimensão contemplativa. Elas funcionam como centros de gravidade simbólica, organizando visualmente o espaço ao seu redor.
Entretanto, talvez seja nas paisagens vegetais que a complexidade simbólica de sua obra se revele de maneira mais sutil. Entre as formas arquitetônicas surgem frequentemente duas árvores: o cipreste e a palmeira. Sua presença recorrente dificilmente pode ser considerada casual.
O cipreste ocupa um lugar privilegiado na história visual do Mediterrâneo. Associado às paisagens italianas e gregas, tornou-se ao longo dos séculos um símbolo de contemplação, permanência e memória. Sua forma vertical estabelece uma ligação entre o mundo terrestre e o espiritual, razão pela qual aparece frequentemente em contextos religiosos e funerários. É uma árvore ligada à duração, ao recolhimento e à consciência da passagem do tempo.
A palmeira, por outro lado, convoca imaginários distintos. Vinculada às regiões tropicais e subtropicais, às rotas marítimas e aos processos de deslocamento, ela evoca fertilidade, expansão, renovação e travessia.
A coexistência dessas duas árvores permite uma leitura particularmente fecunda da obra de Fialdini. Elas parecem funcionar como emblemas de duas grandes matrizes culturais que atravessam o imaginário ocidental: de um lado, o Mediterrâneo, frequentemente associado às origens clássicas da cultura europeia; de outro, os territórios atlânticos e tropicais que passaram a integrar essa história por meio de migrações, violentas colonizações e consequentes intercâmbios culturais.
Nesse sentido, cipreste e palmeira podem ser compreendidos como símbolos dos chamados Velho e Novo Mundo. Não em uma chave histórica literal, mas como figuras de uma geografia imaginária que aproxima heranças distintas. Entre ambas se estabelece uma espécie de ponte simbólica, um espaço onde memória e descoberta, tradição e transformação deixam de se opor para coexistir. Essa condição híbrida ajuda a compreender a sensação de atemporalidade que atravessa toda a sua produção.
As esculturas de Dan Fialdini parecem existir fora da cronologia ordinária. Elas evocam simultaneamente ruínas antigas e construções futuras, cidades mediterrâneas e paisagens tropicais, mitologias arcaicas e sensibilidades contemporâneas. Sua temporalidade é a do mito, não a da história. Como observou o historiador das religiões Mircea Eliade, o pensamento mítico não opera segundo a sucessão linear dos acontecimentos, mas através da coexistência de tempos distintos em um mesmo presente simbólico[2].
Talvez seja justamente por isso que suas obras despertem uma nostalgia tão singular. Não sentimos saudade de um lugar específico, mas de uma condição de pertencimento que parece escapar continuamente à experiência moderna. As casas, escadas, árvores e embarcações presentes em suas esculturas funcionam como vestígios de um mundo onde matéria e espírito, indivíduo e cosmos pareciam ainda profundamente conectados.
Nesse aspecto, sua produção aproxima-se da tradição metafísica italiana. Como nas pinturas de Giorgio de Chirico, as arquiteturas surgem envolvidas por uma atmosfera de suspensão temporal. Como em Giorgio Morandi, os objetos parecem existir em um estado de concentração silenciosa, revelando dimensões poéticas ocultas sob sua aparente simplicidade.
Mas talvez a singularidade de Dan Fialdini resida justamente na maneira como essas referências são absorvidas sem se tornarem citações. Seu trabalho não procura reconstruir o passado nem ilustrar sistemas simbólicos: o que ele produz é uma espécie de arqueologia da imaginação. Cada escultura escava camadas profundas da memória cultural, trazendo à superfície imagens que reconhecemos sem saber exatamente de onde vêm.
Diante delas, somos convidados a desacelerar. A abandonar a lógica da informação imediata e a aceitar o tempo mais lento da contemplação. Nele, a pedra torna-se memória e a arquitetura transforma-se em pensamento.
Entre ciprestes e palmeiras, sóis e luas, escadas e esferas, Dan Fialdini constrói um universo no qual o cotidiano e o mítico coexistem em delicado equilíbrio. Um universo silencioso, mas nunca vazio. Imóvel, mas permanentemente atravessado por transformações invisíveis. Um universo que nos lembra que habitar o mundo é, antes de tudo, habitar um conjunto de imagens que carregamos conosco desde tempos imemoriais.
[1] BACHELARD, Gaston. A Poética do Espaço. Trad Antonio de Pádua Danesi. São Paulo: Martins Fontes, 1998.
[2] ELIADE, Mircea. Imagens e símbolos. Lisboa: Artes e Letras/Arcádia, 1979.