Esgarçar

Andrey Rossi, Beatriz Lindenberg, Bruno Cançado, Desali, Giovani Fantauzzi, Julia Pereira, Laura Villarosa, Liane Roditi, Manoel Veiga, Manuela Costa Lima, Maria Helena Andrés, Marina Rodrigues, Marinalva Rosa, Michelle Rosset, Moara Tupinambá, Naira Pennacchi, Paula Huven, Renata Egreja, Thany Sanches, Yasmin Guimarães e Yohana Oizumi.
de 12 de setembro a 10 de outubro de 2026

É um feliz expediente que faz com que a escultura de Giovanni Fantauzzi receba os visitantes de Esgarçar, na AM Galeria SP. Embaralhando as noções de dentro e fora, interior e exterior, a peça do artista que trabalhou com Amilcar de Castro (1920-2002) dá as boas-vindas, já expandindo o perímetro de um espaço do tipo cubo branco. A exposição coletiva, com 21 artistas, centra o foco de sua discussão nos limites, vistos sob variados modos. Entre as questões colocadas, existem desde situações formais, como o bidimensional e o tridimensional, a abstração e a figuração, entre outras, até duos mais específicos, como a arte e a ciência, a paisagem e a materialidade, a fragmentação do corpo etc. A mostra engloba linguagens diversas, como a pintura, a fotografia, o têxtil, a escultura, o vídeo, a performance e o desenho.

 

Na família do tridimensional ampliado, além de Fantauzzi, Bruno Cançado, Marina Rodrigues, Maria Helena Andrés, Michelle Rosset e Renata Egreja lidam com questões diversas e fazem com que condições fenomenológicas sejam centrais na aproximação público/obra. O tensionamento dos elementos estruturais dos trabalhos, a organicidade deles (para Egreja, por exemplo, por que não considerarmos o objeto como pintura expandida, na mesma linha orgânica do corpus de obra dela?), as conexões com dados projetuais e do desenho acompanham a leitura do recorte apresentado.

 

No campo do corpo presente na coletiva, há a fragmentação tão potente e perceptível no conjunto. Liane Roditi engaja-se nas agruras impostas ao feminino, Yohana Oizumi ressurge num lócus de saúde mental – o conjunto hospitalar de Franco da Rocha – que evoca um antigo horror, Paula Huven lida com o não ver, Thany Sanches cria um pictórico ancorado em flashes contínuos e curtos da modernidade pornográfica e Andrey Rossi faz do corpo exilado dos outros, por conta da pandemia, exercícios estéticos sobre a solidão, enquanto Beatriz Lindenberg usa o próprio corpo como gramática do gesto em desenhos. Julia Pereira, Marinalva Rosa e Manoel Veiga ostentam o pictórico como linguagem movediça, sendo que Veiga trabalha faz décadas nas bordas entre arte e ciência.

 

Laura Villarosa e Yasmin Guimarães exploram a paisagem e a materialidade, com Villarosa optando pelo têxtil e Guimarães sedimentando seu Calder na paisagem friccionando as linhas do horizonte e do chão. Desali, na série Sangue de bairro (assinada em par com o cineasta Affonso Uchôa), crava o olhar na paisagem humana de Contagem, MG, extraindo da perspectiva periférica aproximações com gêneros como a natureza-morta. Moara Tupinambá usa o cromatismo para a ligação com o arcaico e o ancestral. Naira Pennacchi segue até a Serra da Capivara, no Piauí, onde há indícios primevos do homem nas Américas e discute origem e permanência no vídeo Ventre. Sua peça de câmara da série Ponto-Cruz traz materiais à beira do esgotamento conferindo nova configuração de cores, volumes e matéria à paisagem rural. E seria um bom fecho para Esgarçar as três obras de Manuela Costa Lima, em que o espiritual em dourado entinta e quase soterra os banais e cotidianos cartões de ponto, gerando encantamento em pleno mundo do trabalho.

 

Mario Gioia, setembro de 2026

 

Agradecimentos às galerias Central, Eduardo Fernandes, Luciana Caravello, Ora, Quadra e Zipper.