As consequências das cores

Ricardo Homen
de 28/03 a 30/04/2026

Ricardo Homen – As Consequências das Cores

 

A alegria emanada por uma pintura de Ricardo Homen é dificilmente racionalizada com palavras. Porque a alegria é a primeira e a mais pungente consequência das cores contidas nas telas do artista mineiro. A convicção pela policromia é motivo de júbilo. É um deleite que se renova em cada relação tonal por ele experimentada. Como a felicidade oriunda da proximidade do amarelo com o ciano. Ou do carmim com uma coloração verde própria ao mar caribenho. Alguns de seus azuis clamam para serem mergulhados. Paralelamente, pigmentos em magenta conferem uma inesperada vivacidade ao cinza. Existe o divertimento próprio ao jogo quando queremos dar nome a uma tonalidade presente na tela: é ou não é grená? Sobretudo, há o prazer da contemplação descompromissada de quadros capazes de suspender o tempo e as tensões do mundo.

 

Tal alegria advém igualmente de uma rara compreensão das cores de Matisse. Desse modo, a pintura de Ricardo Homen comove por sua erudição. É de uma sabedoria elegante, silenciosa, que não precisa de citações explícitas para atrair a atenção do observador. Por vezes, o artista mineiro nos proporciona um tom anil que remete à singularidade do espectro cerúleo de Yves Klein. Em telas de grandes dimensões como as apresentadas nesta exposição, nós ficamos diante de massas tonais cujo peso e gravidade aludem a Rothko. E assim como nas pinceladas de Volpi, as cores de Ricardo Homen não se apresentam homogeneamente: as variações são sutis, tal como inconstâncias que permitem abarcar uma ampla gama que foge do cientificismo das paletas de cores desenvolvidas por Johannes Itten e Josef Albers com seus alunos na Bauhaus.

 

É preciso também reconhecer que as cores aqui possuem um caráter expansivo. Afinal, uma cor em um quadro de Ricardo Homen parece um núcleo que irradia uma energia capaz de abarcar todo o ambiente. Por mais que estejamos tratando de um meio bidimensional, os trabalhos guardam um caráter espacial, como se as cores fossem portais entreabertos capazes de proporcionar a ampliação do espaço real.

 

Não estará de todo errado aquele que reconhecer formas geométricas nas pinturas desta mostra. É perceptível, aqui e ao longo da trajetória de Ricardo Homen, a recorrência do retângulo em uma miríade de diferentes proporções. Todavia, a chave de compreensão não está no olhar distante e apressado, mas sim na aproximação e no interesse pelas bordas, margens e silhuetas. As aparentes retas não são lineares. Os contornos tremulam e se desfocam. Cada massa tonal tem seus limites ligeiramente extravasados. Transbordam tenuemente. Porque a geometria não é matriz, mas consequência da cor.

 

Ao fim e ao cabo, há a latente e perpétua vibração que advém de cada tinta aplicada nos grandes quadros de Homen. Tal vibração se exacerba na instalação que ocupa o plano de fundo desta exposição: as cores irrompem a unicidade da tela enquanto campo pictórico. A composição policromática passa a ser feita diretamente na parede, isto é, não há mais intermediação entre as experiências tonais de Ricardo Homen e a arquitetura. Os módulos multicoloridos emergem da superfície branca e formam linhas, as quais variam entre a verticalidade absoluta e enviesamentos para diferentes direções. Em conjunto, compreende-se a ascensão. É um elevar-se com um caráter coreográfico pela oscilação das partes. Por mais estática que seja a pintura, tudo ali parece se mover. De onde deriva tal movimento? Agora sabemos de cor e salteado que advém da cor.

 

Francesco Perrotta-Bosch
curador, professor da FAU Mackenzie,
autor de “O Livro dos Labirintos” e “Lina, Uma Biografia”