Thaïs Helt

Thais Salgado Helt (Juiz de Fora MG 1949). Gravadora, pintora, desenhista. Entre 1972 e 1974, cursa litografia com Lotus Lobo (1943) na Escola Guignard, em Belo Horizonte. Gradua-se em Belas Artes, em 1976, e especializa-se em escultura com Amilcar de Castro (1920 - 2002). , entre 1978 e 1979, sempre na Escola Guignard. Em 1981, freqüenta curso de especialização em litografia, com Antônio Grosso, sob o patrocínio da Coordenadoria de Cultura de Minas Gerais. Em 1991, é bolsista do Tamarind Institute, em Albuquerque, nos Estados Unidos. Em 1978, funda a oficina de gravura Casa Litográfica, em Belo Horizonte, com George Helt, Lotus Lobo (1943) e Marina Nazareth (1939) . Em 1988, abre a Oficina Cinco, um ateliê de litografia, em Belo Horizonte. Em 1993, transfere a Oficina Cinco para Nova Lima, Minas Gerais, onde imprime gravuras de vários artistas, entre eles Amilcar de Castro (1920 - 2002). Participa do Grupo do Largo do Ó, de Tiradentes.

Prêmios

1972 - VIII Salão de Campinas, SP.

1973 - Salão Santos Dumont, MG.

1973 - Bolsa de Estudos no Tamarind Institute.

1991 - Albuquerque (novo México EUA.

 

Participação em Salões de Arte

1977 - XIV Bienal de São Paulo.

1981-83 - V e VI Bienal Latino-Americana, Porto Rico.

1980 - II Salão Nacional do Rio de Janeiro.

1981 - XXXIV Salão de Artes de Pernambuco.

 

Publicações

• Lançamento com exposição individual do Circuito Atelier, publicação do livro sobre a obra da artista editora C/Arte.

• A Gravura Brasileira no século XX exposição e edição de livro - Itaú Cultural - São Paulo.

• Exposição coletiva do lançamento do livro BRASILIANART volume 4 - abril de 2004 – Galeria Lemos de Sá – Belo Horizonte.

• Edição de litografias de 16 artistas mineiros para a FIEMG, impresso pela Oficina Cinco, sob a coordenação de Thais Helt – 2004.

• Artista convidada a integrar a exposição A Beautiful Horizon - The Arts of Minas Gerais, Brazil - IDB CulturalCenter - Washington – 2006 sendo sua obra adquirida pelo IDB.

• Possui obras em diversos museus e coleções particulares no Brasil e no exterior.

Individuais

1980 - Galeria de Arte FAOP.
           - UFV.

1987 - Galeria Macunaíma, RJ.

1990 - Galeria da Ex-Libris, BH.

1994 - Kolams Galeria de Arte, BH.

2203 - Casa de Cultura, Nova Lima.

2007 - Tempo Impresso – BDMG Cultural, BH.
            - Tempo Impresso – Galeria Lemos de Sá, BH.

2009 - Thaïs Helt: Ofício Gravura – Centro Cultural USIMINAS, Ipatinga.
            - Thaïs Helt: Ofício Gravura – Centro Cultural FIEMG, Ouro Preto.
            - Thaïs Helt: Ofício Gravura – Museu de Artes e Ofícios, Belo Horizonte.

2010 - Thaïs Helt: Ofício Gravura – Centro Cultural Correios, Salvador-BA.

2016 – Quase um museu de objetos esquecidos, AM Galeria, BH.

 


Coletivas

1980 - Litografia Brasileira, Palácio das Artes BH; Exposição Internacional Funarte, itinerante: América Latina.
            - Artistas Brasileiros, Galeria Gesto Gráfico, BH.

1983 - International Print Exhibit, Taiwan, China.

1986 - 25 Anos de Litografia em Minas, BH e Juiz de Fora.
           - Brazilian Contemporary Prints, Gallery of Saint John's, Santa Fé e Albuquerque, Novo México, EUA.
           - 25 Anos da Litografia de Arte em Minas – Palácio das Artes, BH.

1987 - Itaú galeria, Brasília.
           - Artistas Mineiros, Fundação Cultural de Brasília.
           - Embaixada da França, Brasília.
           - A Gravura em Minas, Museu de Arte da Pampulha.
           - Sobre Papel, Palácio das Artes, BH.

1997 - Prospecções: Arte nos Anos 80 e 90, Palácio das Artes.

2000 - Brasil do Próximo Milênio A Arte em Minas, Juiz de Fora.
            - Leiria, Belo Horizonte, Um Encontro de Culturas, Leiria, Portugal.
            - Investigações: A Gravura Brasileira – Itaú Cultural, SP.

2001 - A Gravura Brasileira, Itaú Cultural, SP.
           - Exposição de inauguração do Atelier de Amílcar de Castro e Thais Helt, Nova Lima.

2005 - Exposição Coletiva de professores da Escola Guignard - Galeria da Escola Guignard.

2006 - Cow Parede – BH.

2007 - Fundação Clóvis Salgado – Impressões Diversas – BH. ;
            - Seleções da Arte Contemporânea Brasileira – Centro Cultural Correios – Rio de Janeiro.

2015 - Códice - do risco ao risco - Museu Vale, Vila Velha – ES

Imagem de Amostra do You Tube

"Como outra obra mnemotécnica, que religa memória e superfícies de tempos superpostos, fagocitados (como acontece com a vida ou com nosso corpo), a obra de Thaïs Helt, tão mineira nesta sedimentação geológica de sua poética feita por camadas (na qual tantas vezes se vê um pequeno resto do trabalho que está por debaixo junto com outros elementos em primeiro plano), baseia sua pesquisa visual numa prática híbrida de impressão, ou seja, de sobre-impressões, de releituras do próprio trabalho, que alimenta uma poética da fragmentação, uma gravura ensamblada onde o universo da reprodução de matrizes encontra-se com elementos diversos (desenho, objetos, recortes, caligrafia, colagens), tudo num estado de associação que subverte a expectativa com que se recebem sempre os trabalhos oriundos da gravura. Até porque o sentido da cópia e da reprodução que a gravura já tinha antes da fotografia vive aqui uma experiência única, precisamente pela citada inclusão de elementos heterodoxos, únicos, metamorfoseados fazendo da imagem plural resultante uma peça única (desvirtuando em parte o mitificado universo da reprodução, a sua contra-aura).
Cabe observar assim, que a chegada dos tecidos manuais ou manufacturados (colchas, toalhas, gravatas), estampas diversas do universo gráfico, desenhos originais, provas e contra-provas da gravura, papiers collés, costuras, bordados, não fazem outra coisa que ampliar surpreendentemente esta poética, até produzir certa vertigem ocular para qualquer aproximação distraída que não queira se aproximar ou adentrar em seu múltiplo bastidor. O sucessivo e paralelo aluvião de materiais e gestos converte esta produção, como já foi chamado, em tempo impresso, ou também, tempo costurado (que religa as diferentes cesuras do tempo não só de sua produção quanto de seus diferentes imaginários).
Desse modo, o diálogo, ou melhor, as modulações de suportes acaba numa metamorfose visual, resultado de interferências sobre interferências, sobre-impressões, reunião de técnicas diversas (parte feita em xilografia em, litografia); são muitos detalhes e nuances nesta obra-renda em que os ornamentos estão ironizados, em que a presença objetual ou de elementos são incorporados no limiar do kistch (da estética popular industrializada para consumo) com todo respeito. E veja-se aqui a presença deste aspecto na inusitada coleção "Quase um museu de objetos esquecidos----Não precisa me explicar. É por isso que vim até aqui". (2015), um verdadeiro melting pot visual que reúne em 6 prateleiras livros de diversa tipologia, impressões, papiers - collés, objetos em caixas de vidro. Uma imensa vitrine-mural, biblioteca de livros-objeto, de artista e objetos, uma obra de arquivo e de dispersão, que se levanta como um muro imagético -transparente e opaco- que oferece exemplos a seus dois lados. Obra de obras que já representa uma exposição em si, aparte, dada a riqueza e vastidão da coleção, seu número (sendo todos de 2014/2015). A tal coleção abriga numerosos pontos cardinais, uma produção quase absurda de caminhos: livros-escultura, com recortes, páginas-dobras geométricas, livros espaciais com espelho e ziper, livros com marcas de mãos ou objetos, desenhos, materiais de todo tipo, como numa biblioteca babélica. E que produz a sua própria perplexidade perceptiva pela sua disposição, pelo seu convite a mergulhar nos universos concentrados expostos destes livros aliceanos. Aliás, o mergulho na imagem é parte da exigência desta referência literária de Lewis Caroll, tão entranhada de visualidade, assim como é significativo que na segunda maior obra da artista de Códice apareçam linhas escritas como desenho caligráfico de Alice no Pais das maravilhas: “Ou o poço era muito fundo ou....(...)” Obra que é costura-tecido-desenho-caligrafia e ao mesmo tempo é escultura-instalação, um altar erigido como um grande livro primigênio (eco de rolos de gravura e dos pergaminhos atávicos da cultura hebreia).
Historicamente, a descoberta do verso da gravura por parte da artista não só ensina a não privilegiar seu frente, senão que impulsa para outro reconhecimento do trabalho, ou seja, trabalhar com o lado que fica escondido. “Pretendo assim romper uma simetria do comportamento gráfico e estabelecer um jogo de interferências e transparências veladas -quase viscerais. Desvinculo cada peça de repetir-se em edições, tentando torná-la mais instigante, misteriosa e contemporânea”, segundo suas palavras. Com essa abertura conceitual, visual da obra gráfica amplia o leque de opções de forma quase infinita. Há formas rebatidas que se incorporam espelhando-se e distorcendo-se, aumentando o vocabulário da artista, o seu diapasão linguístico: esse repetir, interferir na mesma imagem, com superposições de provas e maculaturas irá fazendo da gravura um território mais heterodoxo a todos os efeitos.
Neste itinerário, cada vez mais o recorte e a colagem serão estratégias fundadoras desta obra, pois toda a sua produção última (presente na parte final do galpão do Museu Vale) amplificou esta condição de realidade superposta, de uma trama de imagens-suportes-dimensões que aumentou de forma considerável, e ganhou até evidente tridimensionalidade, com veladuras de papier-collé ou uma fisicalidade objetual muito mais onipresente. Tem ganhado mundo, porosidade exterior, outra vinculação mais ecletica que em obras anteriores mais formais, quando o caminho da xilo e da costura eram ainda mais diretas e planares.
Há portanto nesta poética atual um predomínio do bloqueio do olhar, que trabalha de forma muito característica com o velado, com uma parte sempre oculta, com uma visualidade que não entrega tudo (como aliás, toda arte deve fazer por duas razões: porque é sua missão só aproximar, insinuar percepções semânticas e não ratificar, declarar meras informações, e também por saber que é impossível fazer outra coisa, traduzir tudo, falar do indizível). O que combina com a operação chamada de des-ocultação por Heidegger, do revelado e do velado que há paralelamente na obra de arte, pois a sua natureza é precisamente potenciar a ambiguidade e expor o que não se poder ver mais, ou completamente.
Se se reconhece a gravura como desenho (já notório em Amilcar), neste caso há uma ligação com a escrita no sentido expandido, mais ainda quando introduz a própria escrita -em lápis ou com tinta- de formações de texto que se aderem às linhas ou diretrizes do desenho. (Veja-se a coleção de grandes desenhos horizontais feitos com pigmentos de estrato de nogueira, de formas sinuosas, ondas e oitos deitados, curvas e elipses infinitas, em trance de dança, abismo visual enovelado, musical, outra senha da artista, como outro ponto álgido de Códice). Além disto, se a artista confessa que a gravura é a escrita principal é também porque ela foi fazendo-se mais complexa, ganhando um estatuto de obra múltipla e aberta, capaz de absorver e metabolizar cada vez mais coisas, com dicções interiorizadas mais diversas, incluindo a própria escrita, a caligrafia em estado de desenho ou vice-versa, outro leit motiv desta mostra compartilhada de Códice." [Adolfo Montejo Navas]

 

“Thaís Helt alcançou o domínio pleno da arte de gravar, devendo ser destacada como uma das mais significativas mestras do setor, na atualidade brasileira. Mantém uma tradição que não mais reúne seguidores numerosos, talvez pelas exigências que o necessário ofício impõe ao criador. Arte que demanda engenho pesado requer paixão desmedida.
Nessa série de grandes formatos, com a qual surpreende e encanta o espectador, a artista parece desvelar o olhar diante do universo feminino, com delicada inquietação, em trama que descende do gesto barroco de tocar o interdito, sitiar o mistério e contemplar o pânico.
Um elemento aleatoriamente inquietante se enreda na evolução do grafismo. É uma dissonância que passa a guiar o ritmo do desenho, arrastando-o da emoção inicial para a fronteira da ruptura e os limites da estranheza, à beira do território profundo do segredo. Esse núcleo perturbador sustenta o equilíbrio da composição, ainda que sua tensão pudesse rompê-lo.
É uma poética feminina que busca, não a eloquência dos signos visuais, mas o seu silente fascínio, a sua metamorfose incessante. Procura o seu enigma, tão poderoso como aquele que se guarda na alma de uma personagem de Clarice Lispector, ou singelo como o disfarce de que se vale num poema de Adélia Prado. A linha vaga em elipses, inaugura volutas e sugere volúpia. Vórtice, vértice, vertigem. “Porque há desejo em mim, tudo é cintilância”, diz um verso de Hilda Hilst. A gravura de Thaís Helt põe em cena sentimentos intensos e se eleva na conquista de uma imagem sensível e sensual de refinada qualidade estética. !” [Ângelo Oswaldo de Araújo Santos - Secretario de cultura de Minas Gerais]


"A oficina Cinco vem sendo, desde 1988, quando inaugurada, um lugar da maior importância em Belo Horizonte e hoje no Brasil, onde são desenhadas e impressas litografias dos melhores artistas brasileiros [...] As litografias têm uma impressão perfeita não só pela sensibilidade de seus impressos como e principalmente pelo carinho e atenção de Thaïs Helt, sua coordenadora. Thaïs Helt foi minha aluna e por isso posso atestar com a maior alegria, de seu talento, inteligência, honestidade e competência como desenhista e gravadora." [Amílcar de Castro]

 

"Na litografia, que Thaïs desenvolve em larga escala, a topografia utópica se torna mais evidente, porque, transpondo os limites ortodoxos da técnica, ela utiliza a impressão como mais um recurso. Os collés, utilizando fragmentos de outras obras, impõem uma nova medida gráfica, com uma rica materialização e sensibilização do espaço, onde todo acontecimento – o pensamento, a vida – acontece." [Márcio Sampaio]