Paula Huven

PAULA HUVEN (Nasceu em Belo Horizonte em 1982, onde vive e trabalha atualmente.)

Exposições Individuais

2014 – Devastação. AM Galeria de Arte. Belo Horizonte.
2013 – o que nos une, o que nos separa. Galeria Ibeu. Rio de Janeiro.

Exposições Coletivas

2014 – Prêmio Diário Contemporâneo. Belém, Pará.
2014 – Fotografia Mineira Contemporânea, Festival de Fotografia de Tiradentes. MG.
2013 – A lua no bolso. Largo das Artes. RJ.
2013 – III Mostra Aprofundamento. Escola de Artes Visuais Parque Lage. RJ.
2012 – II Semana da Fotografia de Belo Horizonte. Espaço Cultural CentoeQuatro, BH, MG.
2012 – Abre Alas 8. Galeria A Gentil Carioca. RJ.
2011 –entre a cama e a janela, OI Futuro Flamengo, RJ. Projeto EXPOFOTO.
2010 – OFF Paraty em Foco. Paraty, RJ.
2008 – ao mesmo tempo, coletiva com Leonora Weissmann. Sala Arlinda Corrêa Lima. Palácio das Artes, BH, MG.
2008 – Bebel Tiquira. EAV Parque Lage, RJ. 

Prêmio
2013 - Prêmio Funarte Mulheres nas Artes Visuais

Formação acadêmica:

2012 - Mestrado: Arte e Cultura Contemporânea / Processos Artísticos Contemporâneos. Instituto de Artes, UERJ

2006 - Especialização: Imagens e Culturas Midiáticas. Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, UFMG

2004 - Graduação: Comunicação Social. Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais

Formação complementar

2012 – Bolsa - Programa Aprofundamento, Escola de Artes Visuais do Parque Lage, com Anna Bella Geiger, Fernando Cochiaralle e Marcelo Campos.

2009 – Curso livre: Desenvolvimento de projetos, Escola de Artes Visuais do Parque Lage, com Franz Manata

2008 – Curso livre: Arte Hoje, Escola de Artes Visuais do Parque Lage, com Márcio Botner, Bob N e Pedro França.

2007 – workshop: Foto-Matriz: Panorama da imagem técnica, Escola de Artes Visuais do Parque Lage, com Simone Rodrigues.

 

Exposições Individuais

2014 – Devastação. AM Galeria de Arte. Belo Horizonte.
2013 – o que nos une, o que nos separa. Galeria Ibeu. Rio de Janeiro.

Exposições Coletivas

2014 – Prêmio Diário Contemporâneo. Belém, Pará.
2014 – Fotografia Mineira Contemporânea, Festival de Fotografia de Tiradentes. MG.
2013 – A lua no bolso. Largo das Artes. RJ.
2013 – III Mostra Aprofundamento. Escola de Artes Visuais Parque Lage. RJ.
2012 – II Semana da Fotografia de Belo Horizonte. Espaço Cultural CentoeQuatro, BH, MG.
2012 – Abre Alas 8. Galeria A Gentil Carioca. RJ.
2011 –entre a cama e a janela, OI Futuro Flamengo, RJ. Projeto EXPOFOTO.
2010 – OFF Paraty em Foco. Paraty, RJ.
2008 – ao mesmo tempo, coletiva com Leonora Weissmann. Sala Arlinda Corrêa Lima. Palácio das Artes, BH, MG.
2008 – Bebel Tiquira. EAV Parque Lage, RJ. 

Imagem de Amostra do You Tube


Os olhos, o espelho, o outro

Carolina Junqueira


1. A noite chegara há pouco. Sentamo-nos, lado a lado, nas duas cadeiras diante do espelho falso. Sobre os nossos corpos, a intensa luminosidade do aparato fotográfico, enquanto o leve ruído do disparador cortava os instantes. Nossos olhos, entre as tentativas de escape, encontravam-se, vez ou outra, na distância da imagem no espelho. Fugíamos, voltávamos. Perdemo-nos, por fim. Ainda que nos olhássemos, já não nos víamos. Restitui-se, de repente, o fio mais primitivo que vincula os nossos corpos: o que é meu, o que é dela? Restou somente o olhar: já sem corpo, quase sem visão, o olhar fixo no outro, este que se mistura a mim, que não se separa, que me tira o ar, imagem colada à minha, o meu autorretrato do outro.

2. A primeira imagem com a qual estabelecemos relação talvez seja a nossa própria imagem. Lacan falaria mesmo de uma experiência com o espelho, em que a criança compreende, diante do próprio reflexo, que seu corpo é um outro. Se, naquele momento, ela se dá conta de que existem ao menos dois corpos, o seu próprio e o da mãe, ela constata não somente a alteridade da mãe mas, também, a sua própria alteridade em relação ao pensamento original de ser um único corpo com ela. Tendo olhado para seu corpo no espelho, a criança se vê como um outro. A mãe também a olha e lança ao seu pequeno corpo a confirmação de estar separado. Neste instante, instaura-se uma nova ordem de relação com o mundo, com o olhar e com as imagens. A imagem do outro – a minha imagem no espelho – é a minha origem como sujeito, apartado do outro, separado da mãe.

3. Freud falaria de uma catástrofe. Lacan, de uma devastação. A relação entre essas duas mulheres, mãe e filha, constitui-se por restos sem palavra, resíduos de uma pré-história perdida, sem memória, sem linguagem possível. Segundo Freud, a mãe é o primeiro objeto de amor do menino e da menina. Mas a menina precisa fazer um movimento inverso e difícil: deixar este primeiro objeto amoroso para ir em direção ao pai. Na mãe, falta; o pai é a promessa da restituição do que foi perdido. Nesse rasgo, mãe e menina se perdem no duplo vazio que as constitui. A menina investe, então, em uma primeira separação que deverá ser afirmada ao longo da relação com a mãe. Uma paisagem devastada vincula as duas: o feminino é do campo da falta, do enigma, o que Freud chamou de continente negro, sendo da ordem da construção, jamais algo dado. A menina espera aprender o feminino com a mãe, mãe que, por sua vez, não sabe, não pode ensiná-lo. A relação se investe, então, de jogos de amor e ódio, de decepções e frustrações; uma não pode reinvestir a outra do que falta, do que definitivamente faltará. A história da menina com a mãe transforma-se na história de uma separação necessária, mas sempre adiada; os corpos se misturam, não se sabe o que pertence a quem na relação. Para a menina se tornar mulher, ela precisa separar-se deste outro primordial. Para poder ir em direção ao desejo, é preciso deixar de responder à demanda infinita do outro materno. Mas os vínculos são obscuros, intangíveis. A
paisagem torna-se ruína, deserto. Para Lacan, a devastação é a difícil trama de uma demanda infinita de amor que impossibilita a filha de se separar da mãe para constituir-se como mulher.

4. Na série Devastação, de Paula Huven, o que vemos de imediato é um encontro. Encontro entre mãe e filha, sim, mas um encontro que envolve, ainda, um outro: a fotografia. Na proposta do trabalho, mãe e filha sentam-se diante de um espelho falso, através do qual está a câmera. O tempo que se segue, de uma duração variável, destina-se a uma constituição do olhar das duas, enquanto a artista, atrás do espelho e sem ser vista, procura-o, estabelecendo, por sua vez, uma outra relação com a cena, de captura e silêncio. Digo constituição do olhar porque ele não é algo dado, pronto, imediato. Ele se desenha no tempo em que os olhos se olham, se enfrentam, se acalmam. O olhar acontece, às vezes muito brevemente, num mínimo relance. O olhar não dura, ele é frágil, pode desaparecer com um sorriso, uma risada, a cabeça para baixo, para o lado, os olhos fechados. Quando nos propomos a olhar os olhos do outro, sem nada dizer, sem gesticular, impedindo que qualquer outra linguagem apareça além do olhar, sentimo-nos imediatamente estranhos, muitas vezes rimos, tentando afastar a invasão do olhar do outro. Somos, em geral, protegidos do olhar pelas palavras e pelos gestos, pelo que sempre nos chama em outra direção. Olhar o outro – e, principalmente, deixar-se ser olhado – é um exercício perturbador. Aqui não se trata de um olhar direto, mas de um olhar enviesado: mãe e filha estão lado a lado, olham-se uma para a outra através do espelho. Mas o que poderia ser menos inquietante, porque aparentemente distante, beira o insuportável: como estar diante de um espelho e olhar o outro, se o espelho é o artifício que devolve a minha própria imagem? Diante de um espelho, olhamo-nos a nós mesmos; o outro não precisa de um espelho para ser olhado por nós. O que acontece, então, quando eu olho para o espelho e o que lá encontro é a imagem do outro? Essa inversão desestabiliza de imediato uma ordem da relação: misturamo-nos nos olhos e nas imagens, somos extraviados do nosso próprio corpo, tecidos no corpo do outro. O rosto da mãe, o rosto da filha, instâncias de uma intimidade avassaladora, tornam-se, também, de uma estrangeiridade absoluta. Aquele rosto do outro, que é um pouco meu porque reside em meu olhar, investe o meu próprio rosto de seus traços, perco-me no outro, não me separo, aninho-me no inapreensível de sua imagem. Se o espelho um dia trouxe a confirmação de nossa diferença, hoje ele restitui o rasgo, transformando parte de um corpo no outro. O olhar que um dia separou hoje gera o encontro, para que, talvez, possamos novamente nos separar. Mas a fotografia – ela, este outro – não permitirá mais a separação: para sempre, nela, o fio invisível que nos liga, que nos torna feitas de um só corpo, na trama dos olhos enviesados, dos olhos fechados, da carne misturada, da pele à distância, do riso, da dor – para sempre a imagem será a dupla construção do vínculo e da perda.

[ texto publicado no folder da exposição "Devastação", Galeria AM, BH, 2014]

 

O que nos une, o que nos separa

Fernanda Lopes


O que nos une, o que nos separa, trabalho inédito que dá nome à mostra da artista Paula Huven na Galeria Ibeu, é estruturado, como boa parte de sua produção, a partir de encontros e desencontros. Quando a artista mineira fez sua mudança de Belo Horizonte para o Rio de Janeiro, percebeu que alguns dos filmes fotográficos que tinha guardado estavam perdendo a validade. Durante os seis anos seguintes, ela construiu novos laços de amizade em sua nova cidade. Durante os mesmos seis anos, os filmes vencidos permaneceram guardados. O tempo estava passando para ambos, modificando tanto a sensibilidade dos filmes, quanto a relação da artista com as pessoas.

Entre 2011 e 2012 Paula usou esses filmes vencidos para retratar as amizades da nova cidade, em visitas às casas das pessoas, sempre em frente às janelas, aludindo a uma sensação de que no Rio de Janeiro o convívio se dá mais no espaço urbano do que no espaço privado. Se em O que nos une, o que nos separa a fotografia nasce como possibilidade graças à proximidade entre a artista e o retratado, também é marca da distância entre eles. Feitos com uma camera de médio formato, em longas-exposições [15 segundos], com o uso de um tripé, os retratos são indícios de uma pausa na relação pessoal para a construção de uma outra, localizada na intensificação do momento de feitura dessas imagens[1].

Já em Insensíveis (2012), outra obra inédita, é justamente na ausência do processo fotográfico e do outro que se dá o trabalho. Curiosamente, esse é o único projeto de Paula Huven onde a figura humana não aparece, mas ainda sim depende dela. O livro-objeto precisa ser folheado pelo espectador, para que esse se depare com a descrição de imagens que a artista viu, mas que por não estar com a câmera, o registro nunca foi feito. Lendo as descrições, essas imagens são reconstruídas, cada uma diferente da outra, por cada leitor. Assim, aqui como em outros trabalhos, o pensamento acerca da fotografia é expandido para além da imagem, e o instante fotográfico é redimensionado pela artista para o que ela chama de “momento fotográfico”, contruído a partir de outra relação com o tempo e com o outro.

[1] O dispositivo fotográfico e o estar em relação com o outro também definem os processos de trabalhos como Relações (2007-8) – quando houve uma troca de retratos, feitos em Polaroid, entre a artista e os comerciantes em situações cotidianas pelo Leme, bairro onde morava logo quando se mudou para o Rio de Janeiro – e Encontro com autorretrato (2008) – que registra em fotografia o encontro da artista com seu autorretrato em pintura e abre assim brechas para questões sobre a representação e relações entre pintura e fotografia, e o processo de construção da imagem.

[ texto publicado no folder da exposição "o que nos une, o que nos separa", Galeria IBEU, RJ, 2013]

 

Mergulhos

Júlio Martins


Para Paula Huven a câmera fotográfica é capaz de capturar outras energias tão sutis e tão poderosas como a luz, para além dela. Interessa mais à artista o pano de fundo psicológico e a carga afetiva que sustenta a dinâmica dos olhares do que o mero registro documental dos encontros que promove, sempre desgastando a “distância expectante” entre si e o que fotografa, empenhada em interferir e se misturar no que poderiam denominar os seus “objetos”. Suas fotografias não pretendem se encerrar em sua dimensão imagética, mas retêm aquela ordem de comunicablidade de que partilham os olhares trocados por amantes: que por um ligeiro abrir ou fechar das pálpebras são capazes de liberar uma confissão; ou que por um ágil levantar das sombrancelhas se fazem entender plenamente, sem palavras. Por piscadelas, flertes e outros gestos de expressão delicada os olhares tornam-se cúmplices. Em “Tudo ou Nada mudou” essa intenção de qualificar uma intensidade de olhar se faz reconhecer quando nos oferece a perspectiva em que a artista e o marido se enxergam à mesa do jantar, frente a frente, em dois momentos: recém casados e dois anos depois. Registra-se aí, pela duração mais subjetiva do tempo, uma memória de afetividade que se passa justamente no espaço entre esses olhares. Num de seus primeiros trabalhos, a artista acompanhou durante 6 anos o cotidiano mais íntimo da avó. “Entre a cama e a janela” registra a vida de uma senhora solitária em seu lar. Os registros oscilam entre a liberdade da pose – a avó chega mesmo a mostrar a nudez de um corpo que suportou memórias de uma vida inteira – e a indiferença conquistada pela presença habitual da fotógrafa – que revela momentos espontâneos de frescor, bem como flagra dramas psicológicos da protagonista –, e só encerraram quando a avó ergue a mão para silenciar sua imagem. Há um tom confessional e de intensa proximidade na poética de Paula Huven, para quem as imagens devem constituir testemunhos aquecidos de uma situação partilhada, de um encontro que se estabelece pela via do afeto e que se preserva entre os olhares. Em “Apneia”, investe novamente na criação de uma situação poética que dá sentido amplo e estofo simbólico à fixação da imagem fotográfica. O procedimento consistiu em fotografar mergulhos de pessoas dentro da água fazendo corresponder o tempo de exposição da foto ao tempo em que a pessoa mantivesse o corpo submerso. A artista adere implicações poéticas às questões técnicas da fotografia: o fôlego define a captura da luz. As relações que se estabelecem entre vida e morte se dissolvem no meio líquido, já que, ao mesmo tempo em que oferece resistência e asfixia, a massa aquosa fornece ainda um ambiente placentário. Assim, é notável que sob essas condições de suspensão, o corpo seja submetido à dissolução de sua imagem. Vemos os braços prolongarem-se, as faces se indistinguir nas águas, as extremidades capilarizarem o seu alcance: o corpo se multiplica, em transe.

[ texto publicado no catálogo da exposição III Mostra Aprofundamento, Parque Lage, RJ, 2013]


Sobre estar perto e longe

Carolina Junqueira


Houve um dia em que ela me fotografou. Era um instante íntimo, estávamos nós duas, e uma nova relação, misturada à antiga, se desenhava num momento fotográfico. Não foi somente um instante. Se nós não estávamos tornando ainda mais afetuosa a nossa amizade, era um outro vínculo muito forte que ali se configurava: o vínculo entre fotógrafo, fotografado e imagem. Essa trama de três.

As imagens da Paula são registros de encontros. Encontros que se dão pela fotografia e nela se cristalizam. Encontros que acontecem não para serem fotografados; antes, são encontros possibilitados pela fotografia. A fotógrafa inventa uma trama, constrói uma narrativa de relações e, com a câmera, estabelece vínculos com lugares e pessoas, com o familiar e com o absolutamente estrangeiro. Fotografar requer distância.

Paula fotografou a sua avó em casa durante 6 anos. As primeiras imagens vieram de uma película. Eram os seus avós, juntos. Paula decidira fotografá-los pra sempre, mas houve uma morte. A fotografia foi a única a guardar o corpo do seu avô. A avó, a partir de então sempre perdida pela casa, vagando por espaços familiares e agora estrangeiros, tornou-se a direção do olhar da neta, a fotógrafa. E foram anos de imagens, num jogo de aproximação e distância, de cortinas e poses, entre olhares, espera e uma solidão incontornável. Um dia, a avó escondeu o rosto com as mãos. O gesto repetiu-se até que a neta entendesse que era hora de parar. A narrativa esgotara-se. Mas a vida não.

Entre subir, descer, abrir, olhar, fechar, deitar-se, havia uma câmera, uma avó e uma neta. Havia um encontro, tantas vezes silencioso – talvez os mais delicados encontros aconteçam no silêncio –, de duas mulheres. É isso o que está nas imagens: uma mulher cristalizada em sais de prata e uma mulher que não vemos. Elas estão juntas através da imagem, através do momento perdido em que aquela relação se configurou. Mais do que uma relação familiar, é uma relação de distância – a solidão é incompartilhável. Mas houve um encontro, um dia, no instante expandido do ato fotográfico. E este encontro, entre longe e perto, reverbera-se na imagem e na memória dessas mulheres.

Se a fotografia provoca distâncias, se, mais do que isso, ela só acontece pela distância, é porque a natureza do homem é feita de espaços privados. A fotografia pode estabelecer conexões, encontros, afetos, mas ela compreende, mais do que nós, que nunca se chega perto demais, que sempre há de haver um hiato, um passo, o olhar. Este, sempre distante e estrangeiro.

[ texto publicado no catálogo da exposição Abre Alas 8, Galeria A Gentil Carioca, RJ, 2012]

 

Nós, ao mesmo tempo, sós

Lucia Castello Branco


Encontro estas duas em meio a um caminho cruzado de cartas. Uma delas, de mais perto, declara: “No mesmo dia em que desisti de fazer o retrato (...), acabei conseguindo”. A outra, mais de longe, continua: “Escolhi uma foto para mandar para você fazer o retrato, não sei se é isso mesmo, porque não é exatamente o corpo inteiro, faltam as pernas...”
Caminho em meio a estas duas, vejo corpos enormes, maiores que elas, vejo detalhes ínfimos, menores que todas nós. E leio, em uma delas: “ao mesmo tempo, ouvimos os ruídos e os murmúrios”.
Lembro, ainda perdida entre os retratos maiores que eu, das palavras de Deleuze: o escritor é justamente aquele “que viu e ouviu coisas grandes demais”. E penso: “E o artista? Dos ruídos e murmúrios, o que será o artista ainda capaz de ver?”
Assim me perco, ao mesmo tempo em que me encontro entre dois, entre duas: são os namorados lado a lado, são as amigas posadas sobre o ladrilho hidráulico, são a moça de fundo branco, a moça de fundo preto. E, do outro lado, aquela senhora só, entre o rastro imperceptível de seus gatos e o beijo impossível de suas bonecas.
Antes, muito antes de Leonora e Paula, já havíamos aprendido, com Pessoa, que uma autopsicografia se escreve a partir de um eu tornado outro, ou do outro que o eu sempre é. Agora, com o auto-retrato de Paula pintado por Leonora, aprendemos que uma mulher e outra mulher podem se encontrar em um si mesmo que jamais fará, de duas, uma só. Ou jamais fará, de uma, uma só. Como um dia pudemos ler em Clarice: “Não me posso resumir porque não se pode somar uma cadeira e duas maçãs. Eu sou uma cadeira e duas maçãs. E não me somo”.
Assim permanecemos nós, entre estas duas, irremediavelmente juntas e, ao mesmo tempo, absolutamente sós. Felizmente há a paisagem, essa que atravessa tudo — da imensidão dos retratos de Leonora à minúscula dimensão de seus jardins : jardim do homem, jardim da mulher. Mas a paisagem pode ser também, como nos ensina Gabriela Llansol, o terceiro sexo: “os três sexos que movimentam a dança do vivo: a mulher, o homem, a paisagem”.
Eis que estamos salvos. Pela dança do vivo, escapamos à infinitização a que os espelhos e seus duplos nos condenam. E então podemos entender, finalmente, que o trabalho da paisagem entre elas -- entre nós -- foi o de reunir, pouco a pouco, os absolutamente sós.

[ texto publicado no catálogo da exposição "ao mesmo tempo", Palácio das Artes, BH, 2008]


outros textos:

CONVERSA ENTRE FERNANDA LOPES E PAULA HUVEN :
http://ibeugaleria.blogspot.com.br/2013/05/conversa-entre-fernanda-lopes-e-paula.html

TEXTO DE JESSICA GUARRINA, REVISTA ARTEXTO:
http://revista-artexto.blogspot.com.br/2013/06/la-no-imagen-que-no-existe.html