Delson Uchôa

Vive e trabalha em Maceió, onde se formou em Medicina no ano de 1981 e, paralelamente, iniciou seus estudos em pintura na Fundação Pierre Chalita. Após uma viagem de estudos à França, fixou residência no Rio de Janeiro, onde participou de importantes exposições, iniciando pela coletiva “Como vai você? Geração 80” (Escola de Artes Visuais do Parque Laje, 1984), o que o projetou no cenário artístico nacional. Foi contemplado pela Academia Teuto Brasileira de Verão (DBKV)/ Instituto Goethe/ Fundação Pierre Chalita com uma bolsa em Berlim, Alemanha, onde expôs na Galerie Springer (1993).

Dentre diversas exposições no Brasil e exterior, destacam-se: XX Bienal de Curitiba (Curitiba, 2013); Delson Uchôa, SIM Galeria (Curitiba, 2013); 12th Cairo Bienalle (Egito, 2010); 10ma. Bienal de la Habana (Cuba, 2009); 53ª Biennale di Venezia (Itália, 2009); Instituto Tomie Ohtake, São Paulo (Brasil, 2003); XXIV Bienal de São Paulo (Brasil, 1998); entre outras.

Possui obras em importantes coleções, como: Pinacoteca do Estado de São Paulo, Brasil; Inhotim, Brumadinho, Brasil; Museu de Arte Contemporânea de Niterói, Brasil; Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, Brasil; Vogt Collection, Berlim, Alemanha; entre outras.

1956
Nasceu em Maceió, AL. Vive e trabalha em Maceió

Formação

1981
Estudou pintura na Fundação Pierre Chalita
Formado em medicina
Exposições Individuais

2015
Belo em Si, Zipper Galeria, São Paulo, Brasil

2014
A Pele da Casa: pintura em que habito, Breve ensaio sobre a natureza, AM Galeria, Belo Horizonte, Brasil

2013
ARCOmadrid, SIM Galeria, Madrid, Espanha
Delson Uchôa, SIM Galeria e Simões de Assis Galeria de Arte, Curitiba, Brasil

2012
O Bicho-da-Seda, Centro Cultural São Paulo, Brasil

2010
Delson Uchôa, Luciana Brito Galeria, São Paulo, Brasil

2009
Lume-Nume, Luciana Brito Galeria, São Paulo, Brasil

2007
Delson Uchôa, Brito Cimino 10 Anos, Galeria Brito Cimino, São Paulo, Brasil
Pintura Habitada, Pinacoteca da Universidade Federal de Alagoas, Maceió, Brasil

2005
Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães, Recife, Brasil

2003
Instituto Tomie Ohtake, São Paulo, Brasil

1999
Galeria Masagana, Fundação Joaquim Nabuco, Recife, Brasil

1997
Armazém do Grupo Utinga Leão, Maceió, Brasil

1993
Galerie Springer, Berlin, Alemanha
Thomas Cohn Arte Contemporânea, Rio de Janeiro, Brasil

1990
Thomas Cohn Arte Contemporânea, Rio de Janeiro, Brasil

1988
Galeria Saramenha, Rio de Janeiro, Brasil

1985
Galeria Saramenha, Rio de Janeiro, Brasil

1983
Galeria Guignard, Belo Horizonte, Brasil

1980
Galeria Mobili, Maceió, Brasil
Exposições Coletivas

2015
Ficções, Caixa Cultural Rio de Janeiro, Brasil
Geração 80: Ousadia & Afirmação, Simões de Assis Galeria de Arte, Curitiba, Brasil
Próxima exposição: Squares and Patterns - Delson Uchoa e José Bechara, Ludwig Museum, Koblenz, Alemanha

2014
Encontro de Mundos , MAR, Museu de Arte do Rio, Rio de Janeiro, Brasil
Paço das Artes, Duplo Olhar, São Paulo, Brasil
Tatu: Futebol, Adversidade e Cultura da Caatinga, MAR Museu de Arte do Rio, Rio de Janeiro

2013
Bienal Internacional de Curitiba, Museu Oscar Niemeyer, Curitiba, Brasil
Fogo-fátuo, Sim Galeria, Curitiba, Paraná, Brasil
Parque de Transgressões, SIM Galeria e Simões de Assis Galeria de Arte, Curadoria: Agnaldo Farias, Curitiba, Brasil
Unifor Plástica, Espaço Cultural Unifor, Fortaleza, Brasil

2012
Zona Tórrida, Certa Pintura do Nordeste, Santander Recife, Brasil

2011
Fragmentos de um Prisma, Centro Cultural José Maria Barra, Uberaba, Brasil
Gigante pela Própria Natureza, IVAM, Valência, Espanha
Janelas Abertas n°3, Galeria Amparo 60, Boa Viagem, Recife, Brasil

2010
12th Bienal do Cairo, Egito
Mostra Tripé, SESC Pompéia, São Paulo, Brasil
Ponto de Equilíbrio, Instituto Tomie Ohtake, São Paulo, Brasil

2009
10° Bienal de la Habana, Havana, Cuba
53ª Biennale di Venezia, Veneza, Itália

2008
Contraditório: Panorama da Arte Brasileira 2007, Sala Alcalá 31, Madrid, Espanha
Paralela, Liceu de Artes e Ofícios, São Paulo, Brasil

2007
80/90 Modernos, Pós-modernos, etc. Instituto Tomie Ohtake, São Paulo, Brasil
Contraditório: Panorama da Arte Brasileira 2007, Museu de Arte Moderna de São Paulo, Brasil

2006
Dupla Herança: Entre o Construtivo e o Popular, Centro Cultural Banco do Nordeste, Fortaleza, Brasil

2005
Acervo de Arte Contemporânea, Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães, Recife, Brasil
Arte Pará Edição 2005, Fundação Rômulo Maiorana, Belém, Brasil

2004
Coleção Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães – Doações 2001-2004, Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães, Recife, Brasil
Onde Está Você, Geração 80? Edição Retrospectiva de 20 anos, Centro Cultural Banco do Brasil, Rio de Janeiro, Brasil

1999
Nordestes, SESC Pompéia, São Paulo, Brasil
Olhar Alagoas, Pinacoteca da Universidade Federal de Alagoas, Maceió, Brasil

1998
XXIV Bienal Internacional de São Paulo, Brasil

1995
A Fronteira dos Vazios, Centro Cultural Banco do Brasil, Rio de Janeiro, Brasil
Livro Objeto, Museu de Arte Moderna de São Paulo, Brasil

1992
A Caminho de Niterói, Coleção João Sattamini, Paço Imperial, Rio de Janeiro, Brasil
A Caminho de Niterói, Coleção João Sattamini, Paço Imperial, Rio de Janeiro, Brasil

1985
27 Paisagens Brasileiras, Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, Brasil
Arte Brasileira Atual, Universidade Federal Fluminense, Niterói, Brasil
Como vai Você, Geração 80? Parque Laje, Rio de Janeiro, Brasil
Novos Cariocas, Centro Cultural Candido Mendes, Rio de Janeiro, Brasil
Novos Cariocas, Centro Cultural Candido Mendes, Rio de Janeiro, Brasil
VIII Salão Nacional de Artes Plásticas, Museu Nacional de Arte Moderna do Rio de Janeiro, Brasil

Coleção 

Coleção Inhotim Centro de Arte Contemporânea, Brumadinho, Brasil
Fundação Edson Queiroz, Fortaleza, Brasil
Museu de Arte Contemporânea de Niterói, Brasil
Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães, Recife, Brasil
Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, Brasil
Museu Nacional de Belas Artes, Rio de Janeiro, Brasil
Pinacoteca do Estado de São Paulo, Brasil
Pinacoteca Universitária da Universidade Federal de Alagoas, Maceió, Brasil
Vogt Collection, Berlim, Alemanha
York Stack Collection, Berlim, Alemanha

Exposições Individuais

2009
Lume-Nume. Luciana Brito Galeria, São Paulo, Brasil

2007
Delson Uchôa Brito Cimino 10 Anos, Galeria Brito Cimino, São Paulo, SP, Brazil
Pintura Habitada, Pinacoteca da Universidade Federal de Alagoas, Maceió, AL, Brazil

2005
Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães, Recife, PE, Brazil 

2003
Instituto Tomie Ohtake, São Paulo, SP, Brazil

1999
Galeria Masagana, Fundação Joaquim Nabuco, Recife, PE, Brazil

1997
Armazém do Grupo Utinga Leão, Maceió, AL, Brazil

1993
Galerie Springer, Berlin, Germany
Thomas Cohn Arte Contemporânea, Rio de Janeiro, RJ, Brazil

1990
Thomas Cohn Arte Contemporânea, Rio de Janeiro, RJ, Brazil

1988
Galeria Saramenha, Rio de Janeiro, RJ, Brazil

1985
Galeria Saramenha, Rio de Janeiro, RJ, Brazil

1983
Galeria Guignard, Belo Horizonte, MG, Brazil

1980
Galeria Mobili, Maceió, AL, Brazil

Exposições Coletivas Selecionadas:

2009
53ª. Biennale di Venezia, Veneza, Itália
10ma. Bienal de la Habana, Havana, Cuba

2008
Paralela, Liceu de Artes e Ofícios, São Paulo, SP, Brazil
Contraditório: Panorama da Arte Brasileira 2007, Alcalá 31, Madrid, Spain

2007
Contraditório: Panorama da Arte Brasileira 2007, Museu de Arte Moderna de São Paulo, São Paulo, SP, Brazil
80/90 Modernos, Pós-modernos, etc., Instituto Tomie Ohtake, São Paulo, SP, Brazil

2006
Dupla Herança: Entre o Construtivo e o Popular, Centro Cultural Banco do Nordeste, Fortaleza, CE, Brazil 

2005
Acervo de Arte Contemporânea, Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães, Recife, PE, Brazil
Arte Pará Edição 2005, Fundação Maiorana, Belém, PA, Brazil

2004
Onde Está Você, Geração 80? Edição Retrospectiva de 20 anos, Centro Cultural Banco do Brasil, Rio de Janeiro, RJ and Museu do Estado de Pernambuco, Recife, PE, Brazil
Coleção Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães – Doações 2001-2004, Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães, Recife, PE, Brazil

1999
Nordestes, SESC Pompéia, São Paulo, SP, Brazil
Olhar Alagoas, Pinacoteca Universitária da Universidade Federal de Alagoas, Maceió, AL, Brazil

1998
XXIV Bienal Internacional de São Paulo, SP, Brazil

1995
A Fronteira dos Vazios, Centro Cultural Banco do Brasil, Rio de Janeiro, RJ, Brazil
Livro Objeto, Museu de Arte Moderna de São Paulo, SP, Brazil

1992
A Caminho de Niterói, Coleção João Sattamini, Paço Imperial, Rio de Janeiro, RJ, Brazil

1985
Novos Cariocas, Centro Cultural Candido Mendes, Rio de Janeiro, RJ, Brazil
VIII Salão Nacional de Artes Plásticas, Museu Nacional de Arte Moderna do Rio de Janeiro, RJ, Brazil

1984
1984 Como vai Você, Geração 80?, Parque Laje, Rio de Janeiro, RJ, Brazil
27 Paisagens Brasileiras, Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, RJ, Brazil
Arte brasileira Atual, Universidade Federal Fluminense, Niterói, RJ, Brazil

Coleções Públicas Selecionadas:

Coleção Inhotim Centro de Arte Contemporânea, Brumadinho, Brasil
João Sattamini Collection, Museu de Arte Contemporânea, Niterói, RJ, Brazil
Vogt Collection, Berlin, Germany
York Stack Collection, Berlin, Germany
Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães, Recife, PE, Brazil
Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, RJ, Brazil
Museu Nacional de Belas Artes, Rio de Janeiro, RJ, Brazil

 

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PINTURA COMO CONTO

Quando comecei a estudar sobre a arte do século XX muitas coisas me intrigavam (não que o espanto tenha cessado completamente, mas hoje são espantos mais serenos, domesticados). Entre elas, estava a insistência dos museus apresentarem a obra de Jackson Pollock sem colocar ao lado imagens de como ele fazia suas pinturas. O meu raciocínio era o seguinte: se todos aqueles traços e pingos eram resultado de uma espécie de coreografia empreendida pelo artista com pincéis e tintas sobre a tela porque não poderíamos ver seu processo como parte da obra? Observar apenas a tela, em meu entendimento, era como ver algo pela metade. Eu não sentia a mesma necessidade de ver o processo quando me deparava com uma pintura de Mark Rothko e muito menos de Barnett Newman, alguns dos colegas de Pollock no Expressionismo Abstrato. Passados alguns anos, fui compreendendo que dado o contexto de Pollock e da Escola de Nova York e a leitura formalista que se fazia de sua obra era pertinente a assepsia, a retirada de qualquer possibilidade de “respingo” da vida nas obras.

A membrana imaginária que separava a arte da vida só começou a ficar realmente porosa pouco tempo depois da morte de Pollock. Havia uma ambiência de transgressão não apenas social, mas principalmente artística no início dos anos 1960 na Europa e nos EUA. E este contexto favorecia uma poética processual e multidimensional como a de Yves Klein. Suas antropometrias compreendem não apenas o resultado final, gravuras feitas pela impressão dos corpos diretamente no papel, mas também o registro de toda a performance: Klein regendo tanto uma banda quanto as modelos que se enlambuzavam na tinha azul klein e imprimiam seus corpos contra uma grande tela. O trabalho torna-se um políptico, formado por todas as gravuras e a documentação de seu processo, que podem ser apresentados todos juntos ou apenas alguns agrupamentos, mas sempre com fotografias ou o filme que documenta como foi. A expansão da pintura, desde seu vocabulário até a sua apreensão, já havia iniciado, mas ganha substância a partir dos anos 1960.

Isso tudo me ocorre muitas vezes em que vejo os trabalhos de Delson Uchoa. É como se eu avistasse a sua linhagem pictórica. Mas sua árvore genealógica artística engloba ainda escritores. E não são poucos... Dante e Joyce, são dois exemplos, mas há outros. Esta árvore genealógica mestiça gera pinturas com alto teor de narratividade, sem serem figurativas ou literais. Os títulos dos trabalhos situam as breves estórias que estão contidas nas pinturas, mas eu sempre pensei que a tarefa do texto que apresenta seus trabalhos é contribuir para trazer à tona o todo deste iceberg narrativo. E espero que este possa cumprir esta função.

Eu gosto de pensar que as pinturas de Delson são densamente contaminadas com a vida, sendo algumas delas formadas por pedaços de sua biografia, espessos palimpsestos que acumulam pinturas feitas há 30 anos e que são incorporadas em novas pinturas, fraldas de filhos, roupas da família. Em outro ciclo, que eu costumo chamar de Pintura Habitada, o artista aplicava uma resina no chão de sua casa/ateliê. O formato do piso enformava os traçados da pintura. Como levavam semanas para ficarem prontas, as pinturas eram lavadas com lavanda junto com o resto da casa, recebiam passadas de cachorros, gatos e pessoas. Quando eram finalizadas descamavam feito pele madura que é facilmente retirada da derme.

Se Pintura Habitada era fruto de uma intensa interiorização, película nutrida e carregada da casa do artista, o ciclo que é apresentado nesta exposição parece representar o oposto: expansão.  Sua estória já começa na rua, quando Delson avista uma família se protegendo do sol com sombrinhas extremamente coloridas. A incidência do sol acende-as, causando o efeito de luz-cor, uma constante na pesquisa pictórica deste artista. Impressionado com o efeito obtido por um objeto até então invisível para ele, lança-se na busca por sombrinhas de poliéster e ao defrontar-se com centenas delas, inicia um processo também muito recorrente em seu fazer artístico: a dissecação da estrutura e do tecido, herança de sua formação em medicina. Abre-se então uma gama de possibilidades de experimentação. Da recombinação das sombrinhas, surgem os esféricos, espécie de pinturas escultóricas. Dissecadas e repintadas, viram pintura bidimensional. Numa jornada pelo sertão de Alagoas, Pernambuco e Paraíba, a luz-cor interfere na paisagem e a recodifica em pinturas andantes. A sensação que tenho é de que se trata de um trabalho com uma dinâmica de entrelaçamento que gera polípticos. Cada unidade pode sobreviver individualmente, mas faz grande sentido quando engendradas.

A expansividade desta série de trabalhos diz respeito ainda ao percurso observado por Delson Uchoa na figuração portada pelas sombrinhas made in China. As flores são tropicais e saem do Brasil como imagem. Na china viram gravuras aplicadas nas estruturas metálicas e retornam como aparadores de chuva e de sol. A discussão da migração da imagem das flores que é retirada de seu contexto e vira uma imagem genérica de tropicalidade, associa-se ao questionamento da migração de mão de obra na divisão internacional do trabalho. Como sabemos, para uma sombrinha que atravessou o mundo chegar ao Nordeste do Brasil e ser vendida por tão pouco, é colocado em marcha um esquema de trabalho quase escravo e que mesmo sabendo disso e nos indignando com essa situação, nosso cotidiano é por vezes inundado por produtos procedentes dessa situação. A geografia que emerge nas fotografias de Delson é crítica, mas não panfletária. Talvez nos contos gestacionados em cada pintura feita por ele esteja latente mais uma dimensão questionadora existencial do que propriamente política.

Este conto de luz – cor andarilha não tem necessariamente um fim.

Cristina Tejo

 

O SOL A PINO É UM CANIBAL CROMÁTICO
 
Catarse cromático-luminosa nordestina. Os olhos acesos do artista detectam na paisagem a luzcor movente. Ao abrigo do sol a pino, uma família ostenta prosaicas sombrinhas coloridas, como quem conduz pedaços de telas de Delson Uchôa em um passeio. Polyester tingido, descartável, mimetizando cores, genes e entropias tropicais. Made in China.
 
Insight! A performance casual da família nordestina  consiste, sem sabê-lo, em tingir a paisagem com formas arredondadas e metáforas florais, sob os efeitos enebriantes da luz do sol em ângulo reto. O sol, esse astro, agente e reagente da cor. Canibal cromático!
 
Fantasias heliotrópicas: as sombrinhas são antenas que em movimentos ascendentes e retilíneos, conectam a terra e o céu, o solo e o sol. Flores a germinar na indomável natureza do sertão, aqui vista como tela de fundo, como plano à espera de ser matizado por vermelhos venosos e oxigenados, azuis atemporais e verdes-seiva cítricos que se emancipam, ao comando dos raios solares, da paleta de cores de obviedades desgastadas.
 
A falsa seda de polyester chulo, fecunda no interior do sertão brasileiro, um atávico, proeminente e exuberante “Bicho da Seda”. O Bicho, vaidoso de suas belezas furta-cor, é um ilusionista que cria formas, se metamorfoseia em flores, árvores, rios, estradas, outros bichos. Roteiros oníricos, aparições fantasmáticas. O que se espraia e ocupa espaços durante o dia, se agrupa e ganha novas feições quando percebe a amplidão negra do manto da noite.
 
Entre suas metamorfoses, o Bicho da Seda transita também entre signos da contemporaneidade, das assimetrias sócio-econômicas, das ideologias que subjugam o homem, da força de trabalho que gera luz, mas vive à sombra dos podres poderes. Ao se nutrir do sol e criar o dom de iludir na paisagem, essas flores imprevisíveis representam uma revanche da arte a esse estado de coisas.
 
As sombrinhas resignificadas pelas dimensões simbólicas do artista, são como pixels infiltrados sorrateiramente na paisagem-pintura. Pinceladas rebeldes que se transferiram da tela do pintor para a superfície compactada da resina do metracrilato. Ecoam nessas telas de resina as estratégias pelas quais Delson Uchôa segue constituindo sua iconografia vigorosa, na busca do entendimento da universalidade do seu microcosmo, e da identidade de um lugar, pela metáfora da cor, da luz, da febre que transforma a cor-luz em vertigem.

Mas o Bicho é inquieto, workaholic, andarilho. Manifestação auto-idêntica do artista? Germinou no imaginário do artista, vagou e ainda vaga pelo universo solar, mas também retorna para deixar que seu couro seja retrabalhado no misto de ateliê e sala de cirurgia desse médico-artista. Completa-se o movimento de uma espiral, sem que isso incorra em pretender fechar um ciclo: as cores sedutoras que servem para o sistema chinês engolir o mundo em escala industrial, retornam ao ponto inicial de sua gênese, para se acomodar harmonicamente em sua estridência e voluptuosidade, nos traçados e pinceladas de outras camadas com as quais o artista imanta o couro de polyester. Decodificação genética da paisagem e da arte. Antropofagia invertida, tropicalismo importado da China. Segundo o artista, “paisagens transgênicas”.
 
Eder Chiodetto